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A Outra Face da Lua

A Outra Face da Lua

14
Abr18

Primeira Vez em Amsterdão

ipgines

Tivesse ido sozinha não me tinha metido nos bolos. Mas estava na companhia de duas pessoas que conheciam bem a cidade e cujo principal objectivo de viagem era bolos, vapores, inalações, cogumelos e o simples charro. Lá fui eu há 2 anos passar um fim de semana a Amesterdão. Nunca me senti atraída por alucinogénios nem álcool e nunca consegui fumar. Não sei fumar.

Depois de jantar lá rumámos a uma coffee shop. Emborquei um terço de um space cake bastante concentrado e continuei a conversa que rolava entre nós e mais alguns. Aquele tinha sido o último dia da gay parade e a cidade estava caótica e suja. A última memória decente que tenho é das máquinas a lavarem a rua e de gabarmos a sua competência e rapidez.

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 Depois disso a minha memória passa a retalhos de pura estupidez.

Nunca tinha sentido uma sede tão forte, tão desumana e, ao mesmo tempo que me alarmava o meu estado de seca, ter ataques de riso com a pessoa que comeu os outros 2 terços do meu bolo. Pedíamos um sítio para beber água ao terceiro membro do nosso grupo e chorávamos a rir logo a seguir.

Procurávamos um sítio para comer e passaram-se horas até que me apercebi que andávamos perdidos. As ruas eram todas iguais e tinha a certeza de que estávamos a andar às voltas. O desconforto e uma real preocupação que a sede trouxe, adensou o meu nervosismo até que, numa das pontes que cruzam os muitos canais, decidi tomar controlo do que se passava.

Ainda meio a rir mas a apetecer-me chorar, agarrei-me a um poste de electricidade, agachei-me e disse em pânico aos meus companheiros: estamos perdidos! estamos fartos de passar por aqui! como é possível passar tanto tempo a andar sem ver uma loja ou restaurante?

Afinal tinham passado uns meros 30 minutos desde que tínhamos deixado a coffee shop...  Perdi completamente a noção do tempo!

A minha ansiedade tinha atingido um pico e nunca tinha sentido o meu coração bater tão rápido e até ir à casa de banho tive medo de perder de vista os meus dois amigos e de ficar sozinha naquele estado. Lembro-me de ter uma discussão, na minha mente, em que duvidava de mim própria, daquilo de que tinha acabado de pensar. E voltava a duvidar outra vez do meu último pensamento para logo a seguir me questionar novamente, enquanto os meus amigos tinham as conversas mais normais do mundo... 

Nunca o MacDonald's me tinha sabido tão bem como naquela noite.

O fumo de cannabis faz-me dormir muito bem, mas space cake, pelo menos em ambiente desconhecido, não teve o mesmo efeito. Senti que o meu estado "normal" de ansiedade estava ampliado a 200%.

Ainda assim, gostava de voltar a experimentar uma coisa menos forte e em ambiente controlado.

01
Fev18

República Turca do Norte do Chipre

ipgines

Apenas reconhecida pela Turquia (o resto do mundo reconhece a soberania do Chipre sobre todo o território), é um destino pouco provável. Principalmente porque o Chipre (turístico) é já ali.

 

Um bocadinho da sua história:

Fez parte do Império Otomano até 1914, quando a Inglaterra deu início à sua ocupação e em 1925 foi definitivamente integrada no império Britânico.

O Chipre tornou-se independente em 1960. Um pouco antes, greco-cipriotas apoiavam a anexação da ilha à Grécia e, por sua vez, turco-cipriotas apoiavam a divisão da ilha entre Grécia e Turquia. A disputa despoletou confrontos e uma decisão foi tomada através de acordos para uma república bi-comunal com estatuto igualitário para ambas as comunidades.

Em 1974, um golpe de estado levado a cabo por Gregos numa tentativa de anexação, levou a Turquia a temer pelas comunidades turco-cipriotas e liderou uma invasão do norte da ilha que obrigou a fuga de greco-cipriotas para o sul. Em 1975 a Turquia proclamou a zona "Estado Federado Turco do Chipre" e em 1983 declarou a sua independência.

A ilha está, hoje, dividida entre sul e norte sendo a sua fronteira, a "Linha Verde". Uma zona desmilitarizada, patrulhada pelas Nações Unidas.

 

Pois é. Em Novembro de 2015 visitei este cantinho do mundo e gostei muito. Tão perto do turismo de massas mas ainda tão intacto. Está, obviamente, estragado pelo conflito. Lefkosa, a parte Turca da capital parece parada no tempo. Pós-guerra. Casas destruídas e deitadas abaixo por bombas e paredes retalhadas a tiros de metralhadora.

A população fala turco, é muçulmana, usam a lira turca (mas aceitam euros) e são muito acolhedores e descontraídos. E come-se bem. Muito bem!

Todos os vôos de e para Lefkosa fazem escala em Istambul. Alugar um carro é essencial para visitar a zona norte da ilha. O volante está à direita e conduz-se à esquerda (resquícios britânicos que, por acaso, ainda controlam uma pequena área desta república).

A cidade mais conhecida é Kyrenia, ou Girne. Com os seus casinos, hotéis e resorts, a cidade recebe estrangeiros e gente mais abastada, e tem uma comunidade de reformados britânicos.

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Foi a primeira vez que visitei um país muçulmano e não pude deixar de ficar hipnotizada pela chamada à oração, 5 vezes ao dia: nascer do sol, meio-dia, tarde, pôr-do-sol e noite. Por alguns minutos, é tudo o que se ouve na zona, com os cânticos a soarem e a ecoarem dos vários minaretes na cidade e nas pequenas comunidades mais próximas.

 

Visitei algumas mesquitas que, apesar de não serem tão "grandiosas" como catedrais, muito pela austeridade do edifício (muitas são igrejas românicas convertidas. A arquitectura românica é caracterizada pela sua simplicidade, austeridade e falta de elementos decorativos elaborados).

É obrigatório, para mulheres que queiram entrar, cobrir a cabeça, ombros e pernas caso as tenham à mostra. Já não me lembro mas acho que não se pode entrar durante as orações, mas estive cá fora, à porta, com todos os pares de sapatos que aí ficam, a observar os fiéis na sua preparação através do wudu (ablução), a lavagem de pés, purificação, antes de entrar na mesquita.

 

Num dos primeiros dias, visitámos a costa, a oeste, e vimos o pôr-do-sol em Sadrazamkoy. Em Novembro conseguimos temperaturas a rondar os 25ºC, embora os dias fossem curtos com o sol a esconder-se cedo.

SAM_4648Uns dias mais tarde rumámos até ao braço da guitarra ou, como eu lhe chamo, o osso da costeleta 

Na ponta mais a leste, na Península de Karpaz, em dias de boa visibilidade, avista-se a Síria. Para quem faz esta viagem, aconselha-se a transportar cenouras e maçãs, caso sejam abordados por burros selvagens muito simpáticos. Já estão habituados às pessoas e se os carros param na estrada, eles recebem-nos com muito interesse no que trazemos.

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O dia seguinte foi passado a visitar Famagusta, a segunda maior cidade. Passámos a tarde no terraço da pastelaria Pestek, conhecida pelos doces turcos (baklava, delights e um favorito de sempre... kunafa que não é exclusivo da Turquia, mas é muito bom!) e pelo gelado turco. Feito com leite de cabra, a sua elasticidade é distintiva e os sabores intensos e verdadeiros.

 

Um pouco mais abaixo está Varosha. Um bairro completamente abandonado, destruído, vedado ao público e controlado por militares. Antes de 1974, era uma zona turística cheia de hotéis virado para o mar, com praias privadas. Aquando da invasão turca, o seu exército barrou toda a zona e, apesar da ordenação da passagem da administração daquele bairro para a UN, a Turquia mantém-na como está como "vantagem", moeda de troca. Apesar de ser proibido, tirei algumas fotos. Reparei nalguns vultos que caminhavam lá dentro e é, realmente, arrepiante olhar para aquela extensão abandonada.

SAM_4912O Sufismo é visto como a corrente mística do Islão. Os Sufis procuram o autoconhecimento e o contacto directo com o divino. Os dervish são praticantes do sufismo islâmico conhecidos pela sua pobreza e austeridade. A ordem mais conhecida é a Mevlevi, da qual fazem parte os whirling dervishes.

Vi uma demonstração em Lefkosa e adorei. Infelizmente a minha máquina fotográfica partiu-se no dia anterior e não tenho fotos. É mágico.

 

Mesmo às portas de Kyrenia, o castelo St. Hilarion Kalesi, foi construído bem no alto da serra no século X como mosteiro. Ocupado por vários povos e alterado ao longo dos séculos, no século XI tornou-se fortaleza pelos bizantinos. É uma subida estonteante mas com vistas maravilhosas de onde, em dias limpos, se avista o sul da Turquia.

 

Visitar este país (reconhecido ou não, pouco me interessa) é uma experiência. Foi um post longo, mas espero que quem o tenha lido até ao fim tenha gostado e fique com o bichinho de visitar. Abaixo ficam mais fotos. Obrigada por lerem.

 

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Sadrazamkoy (foto desfocada, mas gostei das cores)

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Lefkosa

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Girne Kalesi

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Porto de Kyrenia

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 Península de Karpaz

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Abaixo: St Hilarion Kalesi

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11
Jan18

Novembro de 2016 - viagem

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Em Setembro de 2016 dei a minha carta de demissão. Estava cansada, custava-me sair da cama e todas as manhãs chegava ao trabalho atrasada. O tempo extra ao final do dia não parecia compensar nem convencer o chefão, além de me sentir completamente estagnada profisisonalmente e a sentir que o ano e meio dedicado àquela empresa não me ía dar muito mais.

Não estava bem nem no trabalho nem em casa e as viagens de casa para o trabalho e vice versa eram feitas na mais absoluta agonia, de face descaída, a esconder as lágrimas que rolavam tão insistentemente.

Aquela demissão soube bem. Mas vinha a incerteza. Não tinha nada confirmado para depois, apesar de ter planeado ficar em casa até ao final do ano.

Queria ir passear mas sem gastar muito dinheiro. Olhei para o mapa de França e lá elaborei um roteiro pela zona Este do país. Tinha encontrado bilhetes para o TGV de Londres a Paris a preços interessantes e assim atravessei o canal, bem cedo, na manhã de dia 17.

Já conhecia Paris de outras viagens e não queria lá ficar muito tempo até porque não sou uma apaixonada pela cidade. Assim que saí da Gare du Nord caminhei até ao Sacré Coeur pois nunca lá tinha ido. Daí, desci pela cidade, almocei junto ao rio e rumei à catedral Notre Dame. Sentei-me, contemplativamente, de frente, a observar os turistas e as pessoas à minha volta. Ainda fiz uma "quase amizade" com um latino-americano mas o autocarro rumo a Reims impediu-me de tomar um amigável chocolat chaud.

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Em Reims ía com ideias de visitar as caves de champagne mas eram um pouco longe da cidade e o país não é o mais barato em termos de transporte. Fiquei-me pela cidade, e percorri as suas ruas. Muitas feiras de Natal estavam a ser preparadas na altura e ainda senti um pouco do espírito festivo.

Gosto muito de catedrais e sés e, quase sempre, visito-as.

 

Segui viagem para a cidade de Metz, atravessada pelo rio Moselle, conhecido pelos seus vinhos, de vinhas assentadas ao longo de todo o rio (em França, Luxemburgo e Alemanha). Como sempre, faço uma caminhada de reconhecimento da cidade e, daí, entrenho-me no seu dia a dia e visito aquilo que mais me marcou. Felizmente tenho bom sentido de orientação e quase raramente me perco gravemente.

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De Metz, a aventura continuou rumo a Estrasburgo. Amei a cidade! Muito pituresca com os seus canais, muito alemã pela arquitectura bem preservada e pela imponente catedral! Aconselho a toda a gente visitar a cidade em Novembro e Dezembro durante as feiras de Natal. A cidade vive ao máximo a época festiva e torna-se mágica.

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De Estrasburgo há comboios que nos levam a Colmar, uma vila pituresca também povoada com casas em estilo enxaimel, tão características da região.

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De Estrasburgo adorava ter ido aos Alpes franceses e ter pernoitado em Chamonix mas percebi que não teria tempo de voltar ao TGV em Paris. Assim, decidi ir até Lyon. Chovia imenso quando cheguei e vi-me aflita para encontrar o hostel. Lá tive de recorrer ao meu francês enferrujado para me salvar daquela situação. É uma cidade intimidante numa primeira impressão, principalmente a zona mais residencial e onde os serviços são mais abundantes. Mas se estranhei num dia, no seguinte já se me tinha entranhado. Não tinha nada definido em Lyon e uns miúdos que conheci no hostel aconselharam-me a ir ao parque Tête d'Or. Assim fiz na manhã seguinte e foi uma manhã perfeita. O parque é lindíssimo e naquele Novembro as folhas mudavam de cor e caíam, os ramos das árvores ficavam nus e os esquilos apressavam-se numa última tentativa de recolher mantimentos.

A tarde foi passada na zona mais velha da cidade, onde subi de funicular à catedral Saint Jean Baptiste, envolta em névoa.

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Na noite antes da minha partida, estava inquieta e não conseguia dormir. Havia demasiados comboios para apanhar de volta a Paris e algo ía correr mal. Combinei um café rápido com um ex colega de trabalho na Gare du Nord.

Na manhã seguinte, lá apanhei o eléctrico para a estação de comboios TGV de Lyon e, pela uma da tarde estava em Paris, na estação de comobios Marne-la-Vallée onde ainda teria de apanhar mais um comboio para Paris central. Depois de alguns contratempos que quase me mataram de susto, lá cheguei eu por volta das 15h30 à Gare du Nord.

Nas calmas, lá tomei um lanche com o meu ex-colega, convencidíssima de que o TGV de volta a Londres era às 16h30. Não era. Perdi o comboio. Como o meu bilhete era daqueles baratuchos com pouca margem de negociações, foi-me informado que o bilhete mais barato para o próximo comboio seriam 236 euros. Entrei em pânico. Que vou eu fazer sem dinheiro no bolso? Telefonei ao meu amigo que me deu guarida e farnel e, mais tarde nesse dia, apanhei o autocarro nocturno de volta a casa.

Eu disse que eram demasiados comboios!!

07
Nov17

Meteora, Grécia

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Há uns meses publiquei um post com destinos que gostaria de visitar este ano. Da lista de quatro, consegui visitar um.

Meteora.

Uma formação rochosa no norte da Grécia onde mosteiros foram esculpidos no topo da rocha. As construções tiveram início no século XII mas a maioria data dos séculos XIV a XVI. Monges eremitas que viviam individualmente em cavernas começaram a sua construção e formaram estas comunidades monásticas. Hoje podem-se visitar 6 mosteiros. Cada entrada custa €3 e lá dentro vendem-se variados artigos, muitos feitos pelos monges e freiras como forma de angariar fundos para a manutenção das construções, para não mencionar as vistas que se tem de toda aquela zona montanhosa. Uma grande percentagem dos edifícios está fechada a visitas pois estas são comunidades que procuram a reclusão, pedindo-se decoro aos visitantes.

As melhores formas de subir aos rochedos é de transporte público. Um autocarro que custa €1,50 por viagem. Há também tours privados que custam entre €20 e €30 e trilhos pedestres para quem gosta de natureza. Estes trilhos ligam a vila de Kalambaka e a aldeia de Kastraki aos principais mosteiros. Lá em cima, é só seguir pela estrada para chegar aos outros mosteiros. Há parques de campismo e quem se aventure a subir de bicicleta.

Eu fiquei lá 2 noites e dois dias e meio mas ficava mais um dia só para ter a certeza que passava em todos os trilhos e via cada recanto deste espacinho. Ainda pouco vi na minha vida mas Meteora ficou no coração. Quero voltar até para visitar e passear por toda aquela zona montanhosa que tem o mais profundo desfiladeiro do mundo, o Vikos.

Abaixo, algumas das fotografias que captei, embora a beleza do sítio não ser transmissível desta forma.

A vista do meu quarto logo de manhã

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 Mosteiro de Varlaam

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 Vista da estrada para a zona montanhosa a norte e noroeste

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Agia Triada - Mosteiro da Santíssima Trindade

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Megalo Meteoro ou Metamorphosis

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