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Dançarina

06.04.18

 

Assim que entra, Ana fecha os olhos e o corpo deixa de ser seu, entregando-o como oferenda numa espécie de ritual.

É assim que se sente livre. É aqui que nada importa como se o mundo parasse para que ela desfrute do momento. A luz, pulsante, sente-a nas pálpebras cerradas, em transe.

No meio da multidão, nas sombras da meia luz de todas as cores que giram em todos os sentidos, nos suores dos empurrões e prazerosos arrepios de frio ao toque de copos com gelo, o seu corpo dança de forma harmoniosamente desordeira, perfeitamente desregrada mas sublime.

Aquelas horas entregues ao nada, à não existência, são o seu retorno à sanidade que se vai esgotando diariamente.

Não vale a pena sequer abrir os olhos e voltar ao mundo que a rejeita. Não, pelo menos, por aquelas horas que são só suas. Não quer voltar aos olhares que a julgam sem falar nem às palavras que a ferem sem a ver. Sem sequer a compreender.

 

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