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A Outra Face da Lua

A Outra Face da Lua

21
Mar18

7 Meses (parte 3)

ipgines

Voltei uma pessoa completamente diferente. 100% decidida a não trabalhar naquele departamento mas a minha demissão nunca aconteceu. Ao fim de um mês passei o meu período de experiência e a minha confiança disparou.

Sentia-me confiante no trabalho que fazia ainda que longe de perfeição e com muitos erros por causa da falta de memória e fraca concentração. Sentia-me confiante porque estava de olho numa vaga a abrir num outro departamento. Já pouco queria saber. Não ficaria ali muito mais tempo.

 

Dois meses depois, sou chamada novamente para uma conversa com a R. Pensando ser uma conversa para que ela pudesse tomar pulso ao meu percurso, pergunta-me logo como me sinto. Respondo que me sinto bem. Feliz por termos equipa completa depois de tanto entra e sai e longos meses de instabilidade no departamento.

Mal acabo a minha frase, a R. diz-me: "Inês, estou farta e cansada da tua atitude. Pareces uma miúda de 15 anos, imatura! Estou farta de que te levantes a toda a hora para ires buscar chá ou ires à casa de banho, de não levares o trabalho a sério. És arrogante! As tuas colegas encobrem os teus erros e és muito ansiosa. A tua comunicação física é stressante, estás sempre a passar as mãos na testa com stress..." A conversa foi feita por estas linhas e tocou em outros assuntos mais específicos não relacionados com trabalho. Fui acusada de coisas que não fiz e, deu-se início a um ataque de pânico que, incrivelmente, consegui controlar por entre soluços, ao que ela responde: "Desculpa, mas não acredito em ti. Não acredito".

A empresa deixa levar cães de companhia para o trabalho e eu gostava de descomprimir brincando com um em particular. Até nisso me provocou e disse que não o podia fazer. Que era demais.

Mais uma vez, à semelhança da outra conversa, agradeci e saí. Pensei em dar a minha demissão na hora mas achei melhor não fazê-lo de cabeça quente. Naquele dia devo ter chorado imenso. Nem me lembro mais. Dias depois telefonei à minha mãe e disse: "É desta. Vou para casa."

Dei a minha demissão uma semana depois e a atitude dela mudou. O meu último mês foi um misto de uma felicidade libertadora com um medo do incerto, ao som de comentários velhacos, vindos desta senhora que, numa semana praticamente me levou à minha demissão, e na semana seguinte dizia em voz alta à frente de todos que sentia pena de eu ir-me embora. Logo agora que estava tão boa! Encarregou-me de dar formação a novos membros da empresa. Que seria uma mais valia no meu currículo.

 

Esta história tem muitos mais detalhes e condicionantes. Pessoas que não foram mencionadas mas que assumiram uma importância passivo-activa neste ambiente.

 

Não quero, com esta história, passar por vítima. Tenho noção de que muitas coisas que me foram ditas são verdade. Não queria, nunca quis, fazer aquele tipo de trabalho. Apenas o usei como relançamento após a minha paragem. É muito difícil libertar-me dos sentimentos em que a minha demissão esteve envolta. Não consigo deixar de me sentir injustiçada. É comum haver uma entrevista de saída com os Recursos Humanos, mas não me foi concedida. O que aumentou um pouco mais o sentimento. Não tive uma voz. Não me foi pedida opinião. Senti-me insignificante. E aceitar que precisava de descansar, abri mão de uma oportunidade de trabalho que realmente queria. A vaga que ía abrir no outro departamento.

 

Há poucas semanas dei de caras com um vídeo que explica que os humanos têm um hábito primitivo de passar os dedos na testa em situações de stress, como forma de aliviar a ansiedade do momento. É natural. Inconsciente. E foi com este pequeno movimento que eu tanto faço que ela embirrou.

 

Não esquecerei esta experiência tão rapidamente quanto queria mas, felizmente, está a ser mais rápido do que o que pensei. Fico feliz por não ter de trabalhar com alguém com tão pouca inteligência emocional. E foi assim que aprendi que tudo a que resistimos, persiste. Costumo dizer que não desisto facilmente mas, há que saber quando é o melhor momento de saltar fora!