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Quando a nova gerente apareceu houve um certo alívio da minha parte porque o ambiente na equipa se tinha degradado. Sentia que não podia confiar nas pessoas sentadas à minha frente e, afinal, a integração naquela empresa tão avant garde, não tinha sido a melhor. A cordialidade aparente não estava assim tão propagada e pouca gente se interessou em bem receber os novos membros. Conheci imensa gente com quem me dei bem, muito bem, mas as pessoas com quem mantinha relações profissionais chegadas mostraram pouco interesse nas novatas.

A nova gerente, R., vinha da mesma escola profissional que eu. Tínhamos trabalhado no "monstro". A empresa que me levou à quase loucura mas onde aprendi quase tudo o que sei sobre hotelaria. Mas sentir esta ligação com a R. fez-me renascer. Tínhamos os mesmos métodos e tudo o que de novo implementou (muito, também, por despeito à antiga gerente da qual não gostava) não era novidade e dava-me alento para me sentir confortável e acreditar de novo em mim.

Com ela trouxe o 4º membro da equipa. Outra portuguesa, de personalidade fortíssima, com quem tive pena de não ter convivido mais, por preconceito.

 

Logo nas primeiras semanas, a R. mostrou ter problemas (pessoais, sinceramente...) com o puto mais novo. O único crime dele era não ser daquela área profissional. Não gostava da forma como ele trabalhava. Na altura achei que tivesse razão, mais tarde tirei a minhas próprias conclusões.

Quando a R. começou em Abril, já eu lá estava há 2 meses. No final deste mês, que deveria coincidir com o término do meu período de experiência, ela sacou-me o tapete debaixo dos pés e viu-me cair e estatelar a cara no chão ao estendê-lo por mais um mês por não compreender que caminho eu queria levar. Foi extremamente cordial comigo durante toda a conversa, mas devia ter percebido o que o futuro me traria quando ela desprezou a minha situação de depressão quando lhe digo que não tomava medicação e me diz que sabe o que é a verdadeira depressão porque um ex namorado se suicidou e porque uma amiga próxima tinha tentado o suicídio. Além disso, o seu namorado é psicólogo o que lhe deu, a seu entender, conhecimento para dar palpites. Na minha folha de avaliação, apenas se destacava a minha assiduidade, estando tudo o resto marcado como aspectos "a melhorar". Foi inevitável não duvidar das minhas capacidades. Que fiz eu ali durante 3 meses?

A meu ver, a extensão de um período de experiência justifica-se quando o trabalho não é realmente (bem) feito. Quando, pura e simplesmente, não queremos saber. Sempre gostei de achar que sou profissional. Mesmo naqueles meses que me era tão difícil sair da cama, conseguia, não só fazê-lo como conseguia chegar mais cedo para tomar pequeno almoço e ambientar-me ao início do dia e nunca faltei. Sempre fui cordial com toda a gente (apesar do meu aspecto cansado e timidez natural) e nunca faltei ao respeito a ninguém tentando sempre manter boas relações com todos os departamentos.

Muito sucintamente, a extensão do meu período de experiência fez-me muito mal. Tive consciência que a qualidade do meu trabalho diminuiu, a minha memória e concentração pioraram e tinha crises de choro. Qualquer erro ou decisão que tivesse de tomar sobre os erros que tinha cometido davam-me uma ansiedade que quase me matava.

 

O puto novo demitiu-se. Fez queixa aos Recursos Humanos pela pressão que sentiu da nova gerente e pela forma como se sentiu alienado do resto da equipa. E comecei a entendê-lo. Pois comecei.

Apesar da extensão do meu período experimental, pude tirar férias. E assim o fiz em meados de Maio. Não fui sem antes, no meu último dia de trabalho, a directora e a gerente me informarem que se não mudasse a minha atitude aquando do meu regresso, seria dispensada no prazo de 15 dias. E foi-me dito mais. Muito mais. Que eu não era um bom encaixe na equipa. Que era negativa e que passava muita negatividade a todos à minha volta. Que as pessoas torciam o nariz às coisas que eu dizia porque eram tão negativas. E os exemplos dados serviram apenas para me deixar com um sentimento de injustiça. Pareceu-me que tudo o que me saísse da boca para fora era negativo. Além disto, era má comunicadora. Não falava com a equipa e tinha pouca iniciativa em tomadas de decisão. E, apesar desta última parte ser verdade, a razão devia-se à R. Uma control freak que escutava tudo à sua volta e controlava tudo o que fazíamos. Qualquer decisão tomada não era a melhor para ela. Era-nos pedida independência para tomar decisões mas, ao mesmo tempo, negada. Tratava-nos como miúdos.

Aqueles 5 ou 10 minutos foram muito longos e não abri a boca até ao fim quando me pediram uma reacção. Disse-lhes que não íam ter uma. A minha reacção naquele momento seria uma de cabeça quente, emocional e com pouco sentido. Agradeci, saí e fechei-me na casa de banho, muito decidida a quando voltasse das minhas férias, seria eu a informar que ao final de 15 dias não voltaria. Estava convencidíssima de que me estavam a empurrar para fora da equipa e da empresa. Um sentimento abismal de rejeição e de incompetência.

Comecei a fazer planos para voltar para Portugal. Eram, finalmente, sinais mais que óbvios que o meu tempo naquele país tinha uma data de validade expirada há muito tempo.

 

As minhas férias foram maravilhosas. Apesar de, no meu íntimo, saber que continuaria naquela empresa mas que tudo seria muito diferente do que pensei.

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