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A Outra Face da Lua

A Outra Face da Lua

01
Fev18

República Turca do Norte do Chipre

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Apenas reconhecida pela Turquia (o resto do mundo reconhece a soberania do Chipre sobre todo o território), é um destino pouco provável. Principalmente porque o Chipre (turístico) é já ali.

 

Um bocadinho da sua história:

Fez parte do Império Otomano até 1914, quando a Inglaterra deu início à sua ocupação e em 1925 foi definitivamente integrada no império Britânico.

O Chipre tornou-se independente em 1960. Um pouco antes, greco-cipriotas apoiavam a anexação da ilha à Grécia e, por sua vez, turco-cipriotas apoiavam a divisão da ilha entre Grécia e Turquia. A disputa despoletou confrontos e uma decisão foi tomada através de acordos para uma república bi-comunal com estatuto igualitário para ambas as comunidades.

Em 1974, um golpe de estado levado a cabo por Gregos numa tentativa de anexação, levou a Turquia a temer pelas comunidades turco-cipriotas e liderou uma invasão do norte da ilha que obrigou a fuga de greco-cipriotas para o sul. Em 1975 a Turquia proclamou a zona "Estado Federado Turco do Chipre" e em 1983 declarou a sua independência.

A ilha está, hoje, dividida entre sul e norte sendo a sua fronteira, a "Linha Verde". Uma zona desmilitarizada, patrulhada pelas Nações Unidas.

 

Pois é. Em Novembro de 2015 visitei este cantinho do mundo e gostei muito. Tão perto do turismo de massas mas ainda tão intacto. Está, obviamente, estragado pelo conflito. Lefkosa, a parte Turca da capital parece parada no tempo. Pós-guerra. Casas destruídas e deitadas abaixo por bombas e paredes retalhadas a tiros de metralhadora.

A população fala turco, é muçulmana, usam a lira turca (mas aceitam euros) e são muito acolhedores e descontraídos. E come-se bem. Muito bem!

Todos os vôos de e para Lefkosa fazem escala em Istambul. Alugar um carro é essencial para visitar a zona norte da ilha. O volante está à direita e conduz-se à esquerda (resquícios britânicos que, por acaso, ainda controlam uma pequena área desta república).

A cidade mais conhecida é Kyrenia, ou Girne. Com os seus casinos, hotéis e resorts, a cidade recebe estrangeiros e gente mais abastada, e tem uma comunidade de reformados britânicos.

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Foi a primeira vez que visitei um país muçulmano e não pude deixar de ficar hipnotizada pela chamada à oração, 5 vezes ao dia: nascer do sol, meio-dia, tarde, pôr-do-sol e noite. Por alguns minutos, é tudo o que se ouve na zona, com os cânticos a soarem e a ecoarem dos vários minaretes na cidade e nas pequenas comunidades mais próximas.

 

Visitei algumas mesquitas que, apesar de não serem tão "grandiosas" como catedrais, muito pela austeridade do edifício (muitas são igrejas românicas convertidas. A arquitectura românica é caracterizada pela sua simplicidade, austeridade e falta de elementos decorativos elaborados).

É obrigatório, para mulheres que queiram entrar, cobrir a cabeça, ombros e pernas caso as tenham à mostra. Já não me lembro mas acho que não se pode entrar durante as orações, mas estive cá fora, à porta, com todos os pares de sapatos que aí ficam, a observar os fiéis na sua preparação através do wudu (ablução), a lavagem de pés, purificação, antes de entrar na mesquita.

 

Num dos primeiros dias, visitámos a costa, a oeste, e vimos o pôr-do-sol em Sadrazamkoy. Em Novembro conseguimos temperaturas a rondar os 25ºC, embora os dias fossem curtos com o sol a esconder-se cedo.

SAM_4648Uns dias mais tarde rumámos até ao braço da guitarra ou, como eu lhe chamo, o osso da costeleta 

Na ponta mais a leste, na Península de Karpaz, em dias de boa visibilidade, avista-se a Síria. Para quem faz esta viagem, aconselha-se a transportar cenouras e maçãs, caso sejam abordados por burros selvagens muito simpáticos. Já estão habituados às pessoas e se os carros param na estrada, eles recebem-nos com muito interesse no que trazemos.

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O dia seguinte foi passado a visitar Famagusta, a segunda maior cidade. Passámos a tarde no terraço da pastelaria Pestek, conhecida pelos doces turcos (baklava, delights e um favorito de sempre... kunafa que não é exclusivo da Turquia, mas é muito bom!) e pelo gelado turco. Feito com leite de cabra, a sua elasticidade é distintiva e os sabores intensos e verdadeiros.

 

Um pouco mais abaixo está Varosha. Um bairro completamente abandonado, destruído, vedado ao público e controlado por militares. Antes de 1974, era uma zona turística cheia de hotéis virado para o mar, com praias privadas. Aquando da invasão turca, o seu exército barrou toda a zona e, apesar da ordenação da passagem da administração daquele bairro para a UN, a Turquia mantém-na como está como "vantagem", moeda de troca. Apesar de ser proibido, tirei algumas fotos. Reparei nalguns vultos que caminhavam lá dentro e é, realmente, arrepiante olhar para aquela extensão abandonada.

SAM_4912O Sufismo é visto como a corrente mística do Islão. Os Sufis procuram o autoconhecimento e o contacto directo com o divino. Os dervish são praticantes do sufismo islâmico conhecidos pela sua pobreza e austeridade. A ordem mais conhecida é a Mevlevi, da qual fazem parte os whirling dervishes.

Vi uma demonstração em Lefkosa e adorei. Infelizmente a minha máquina fotográfica partiu-se no dia anterior e não tenho fotos. É mágico.

 

Mesmo às portas de Kyrenia, o castelo St. Hilarion Kalesi, foi construído bem no alto da serra no século X como mosteiro. Ocupado por vários povos e alterado ao longo dos séculos, no século XI tornou-se fortaleza pelos bizantinos. É uma subida estonteante mas com vistas maravilhosas de onde, em dias limpos, se avista o sul da Turquia.

 

Visitar este país (reconhecido ou não, pouco me interessa) é uma experiência. Foi um post longo, mas espero que quem o tenha lido até ao fim tenha gostado e fique com o bichinho de visitar. Abaixo ficam mais fotos. Obrigada por lerem.

 

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Sadrazamkoy (foto desfocada, mas gostei das cores)

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Lefkosa

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Girne Kalesi

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Porto de Kyrenia

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 Península de Karpaz

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Abaixo: St Hilarion Kalesi

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