Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Outra Face da Lua

A Outra Face da Lua

15
Jan17

Não faças aos outros...

ipgines

Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti. Na minha escola primária, esta "regra de vida" estava escrita no edifício principal e nunca mais a esquci.

 

Há uns anos atrás, quando mais precisei de ajuda, quando a vontade de viver me deixou, estava sozinha, perdida na solidão que a depressão me impôs. Fechada no meu quarto, escrevi. Sobre como me puni pela culpa que sentia.

 

Como alvo fácil, as pessoas abusaram da minha fragilidade. No trabalho fui gozada, provavelmente tida como louca, chamaram-me “sensível” e ainda ouvi “deixa-te disso!”, “há pessoas em situações piores” e “tens de ser positiva”. Estava rodeada de gente que não percebeu ou pura e simplesmente ignorou os meus “gritos mudos”, a dor e a solidão nas minha lágrimas, sempre a minha maior fraqueza. Ninguém quis saber.

 

Nos milhares de anos em que Humanidade tem evoluído, onde é que a empatia e solidariedade com a própria raça desapareceu? Ou nunca existiu?

 

Cada pessoa passa pelas suas próprias batalhas. Todos os dias. Umas, mais pequenas que outras e a forma como lidamos com elas varia de indivíduo para indivíduo. Se não gostamos de ouvir determinadas coisas nem ser assombrados por negatividade, que direito sentimos ter para fazer sofrer os outros? Porquê apenas reciprocar gratidão e positivismo e não oferecê-los sem impor ou esperar algo em retorno. É gratuito e não dói! Acho até que temos um prazer doentio em ver os outros sofrer.

 

Depressão é uma doença. Não passa com sorrisos nem pensos rápidos. Pode até nunca passar. É lutar contra a nossa maior inimiga. A mente.

 

Quando nós dizemos o bem, ou o mal... há uma série de pequenos satélites desses grandes planetas, e que são a pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedicação... No fundo é disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de debilidades... Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma importância, é importante ter como regra fundamental de vida não fazer mal a outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupação de respeitar esta simples regra de convivência humana, não vale a pena perdermo-nos em grandes filosofias sobre o bem e sobre o mal. «Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti» parece um ponto de vista egoísta, mas é o único do género por onde se chega não ao egoísmo mas à relação humana.

José Saramago, in "Revista Diário da Madeira, Junho 1994"

6 comentários

Comentar post